Era 27 de novembro de 2021. O Flamengo tinha o elenco mais caro do continente, a confiança da gigante magnética e a torcida espalhada pelo mundo pronta para explodir.
Mas o futebol, esse velho sádico, gosta de reviravoltas cruéis.
Gabriel Barbosa empata o jogo, Michael tem a bola da virada em seus pezinhos ariscos e perde.
Mas quis o destino que o belga Andreas Pereira escorregasse, e a bola se apresentasse para o sarcástico Deyverson, que sorriu, e o sonho virou pesadelo.
A imagem daquele lance ainda assombra, confesso que hoje só assisto de canto de olho. Desconfio que com você seja igual. Montevidéu virou trauma, até pra ir de turista.
O Palmeiras, caracterizado de Andreas, foi o vilão que o destino escolheu pra eternizar essa dor.
Quatro anos depois, um enredo parecido
Corta pra 2025. O Flamengo, em jogo épico, volta à final da Libertadores comandado pelo ídolo Filipe Luís. E adivinha quem está do outro lado?
O mesmo Palmeiras, que também chegou em jogo épico, agora mais frio, mais experiente, e ainda comandado por Abel Ferreira – o homem que aprendeu a jogar finais como quem lê manual de guerra.
Com o confronto definido, a primeira frase que ecoou na minha cabeça foi do trio Alcino Ferreira / Mauro Diniz / Adauto Magalha e imortalizado pelo grupo Fundo de quintal na música “Parabéns pra Você” no trecho: A dor que passou, deixou cicatriz…e só parou em Parabéns pra você (Andreas) por tentar me enganar / Me ferir por prazer num capricho vulgar.
Dois times que investiram pesado pelo sonho do tetra. E que, até agora, brigam ponto a ponto pelo campeonato brasileiro.
Mas o Flamengo não é o mesmo.
É um time que sangrou, se reergueu, trocou peças, treinadores (sua quarta final em 7 anos com o quarto técnico) e certezas.
Hoje, joga com cicatrizes – e nelas, a força que faltou naquela tarde em Montevidéu. A força de quem sabe jogar uma libertadores depois de eliminar dois argentinos em territórios hostis.
Um clássico de eras
Não é só uma final. É um jogo simbólico para o futebol brasileiro. É a disputa pela supremacia do século entre dois colossos que aprenderam a se odiar, com respeito, dentro de campo.
De um lado, o pragmatismo verde que faz da eficiência sua religião, mesmo que tenha aprendido a gostar de jogar. Do outro, o rubro-negro que se alimenta de caos, que propõe jogo e busca improvisos.
Palmeiras e Flamengo são como pólos opostos de uma mesma obsessão: vencer, erguer a taças, e calar rivais.
O tetra — quem subirá neste degrau da glória
No dia 29 de novembro, o Monumental de Lima vai tremer. O que está em jogo é mais que uma taça.
É o título de primeiro brasileiro tetracampeão da Libertadores da América. É história viva, escrita à força, suor e redenção.
De um lado, o time que não esquece o tombo recente. Do outro, o time que aprendeu a vencer sem olhar pra trás.
O jogo da vida
Quando a bola rolar, não será só futebol.
Será a tentativa de exorcizar fantasmas, de cicatrizar feridas e de provar — pra eles e pra nós — que o Flamengo pode cair uma vez – “mas sempre volta”, diria Odete Roitman em seu trágico remake.
Porque no Flamengo, o que é tragédia ontem vira epopeia amanhã. E no dia 29 de novembro de 2025, a América vai testemunhar uma ferida sendo fechada a sangue frio.

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