Avellaneda, noite fria, expectativa, cenário bélico e provocativo.
O Flamengo chega com vantagem – 1×0 no Maracanã, gol chorado de Jorge Carrascal (ou contra do Rojo), suor, sofrimento, mas aquele placar que já nos fazia acreditar: se segurarmos a pressão, estamos na final.
E lá estávamos nós, rubro-negros com o coração na boca, assistindo nosso time – que no final de semana anterior, foi taxado de frouxo e sem vontade – liderados por Filipe Luís transitarem entre bravura e sangue-nos-olhos, não esperávamos menos que isso.
Do outro lado, o tradicional Racing, ou La Academia, potente em casa, faminto e barulhento. Os caras gritaram e espernearam desde o final do jogo de ida, prometeram guerra, “morte” e pressão.
E agora vamos ao que, de fato, aconteceu.
A tensão, o perigo e o desgaste
Desde o apito inicial, o Racing empurrou. No primeiro tempo, as bolas longas, os cruzamentos, as posses em segundas bolas… e o Flamengo resistia. Logo o time se ajustou, reagiu e criou. Chutes de fora da área, bolas cruzando a área e o goleiro Cambeses continuava em um momento espetacular, assim como no primeiro jogo.
E mesmo com isso, resistimos. Resistimos porque o Flamengo entendeu: não era dia de brilhar à toa, era dia de aguentar firme. Era dia de jogar uma semifinal de Libertadores da América.
Eu tenho 37 anos e me recordo de poucos momentos em que o Flamengo peleou em um jogo de Libertadores como fez ontem em Avellaneda. Mostraram huevos, entraram com pecho frio. E não, não jogaram a lá Flamengo, foram além disso!
Fim de primeiro tempo, a tal pressão inicial foi controlada com uma postura impecável e uma solidez defensiva de causar inveja, e foi assim até o final do jogo…mas com a emoção inevitável.
A defesa que ficou de pé
O segundo tempo começa e a mesma tônica. Bolas na área, linha de defesa concentradíssima. E num momento em que tudo parecia equilibrado, em que parecia falta para o Flamengo ganhar alguns preciosos segundos, pá: expulsão de Gonzalo Plata, de novo ele, de novo injusto.
Aos 10 minutos do segundo tempo, o Psicoplata acerta Marcos Rojo nos huevos em um ato de revide pós joelhada na cabeça…isso mesmo, dizem que foi na parte íntima, sim, e foi vermelho direto. Bem feito? Talvez, por ter feito por merecer. Irônico? Muito. Mas injusto, se for por isso, cada jogo teria 5 expulsões. E, assim, La Academia agora tinha vantagem numérica, dentro de seu templo.
Agora imagina: jogar na Argentina, contra o Racing, um estádio vibrando como se fosse final — e você perde um jogador. Mas aí mora o ouro: o Flamengo entendeu que havia mais em jogo que “jogar bonito”.
A defesa do Flamengo sustentou. A zaga — Léo Pereira, Léo Ortiz e Danilo (quando precisou entrar) — fez o seu papel, os laterais também seguraram, mesmo com o Rodinei 2.0 Royal.
E é um tanto impressionante constatar que, em um jogo desse tamanho, o sistema defensivo tenha feito apenas quatro faltas.
Mas se tem um nome a ser exaltado nesta partida – e em toda a campanha desse ano – é Agustín Rossi. Que gigante! Nosso paredão fez “milagres”, mesmo quando saiu mal do gol.
A defesa no chute do Vietto é coisa de cinema. Mesmo com 9 jogadores na área, tinha espaço pra bola cair no pé do camisa 10 argentino que domina, olha e chuta. A bola, maliciosamente, desvia no Royal e vai na direção do gol, mas ele, Rossi, estava lá pra defender!
O time foi cabeça, fez o simples, e suportou o tranco. Os argentinos pressionando, bola na área, cruzamento, desespero — e o Flamengo respirando fundo, aguentando o rojão. A maturidade.
Um outro detalhe que não pode passar batido.
Imagina o cenário: semifinal de libertadores, jogo de volta, tensão no ar, seu time precisa de 1 gol pra se manter na briga. Escanteio. Último lance do jogo. Goleiro vai pra área. É tudo ou nada. O MALANDRO BATE UM ESCANTEIO CURTO. Com todo o respeito, tem mais é que se foder.
A classificação — e a história que se repete (ou não)
Depois dessa pataquada argentina, o tango! Com o 0×0 no El Cilindro, o Flamengo carimbou sua vaga na final da Libertadores. A quarta final de Libertadores em 7 anos. E, sim, com um homem a menos por boa parte — o que torna tudo ainda mais épico.
Mas o que fica para mim, como torcedor que veste a camisa, é: isso não é rotina, nem podemos tratar com soberba — isso é legado. Cada final mostra que o Flamengo está decidido a devanear com a América — não mais coadjuvante, e, sim, protagonista.
E aqui em casa, lágrimas de alegria misturadas com alívio. Agora é ansiedade por mais 30 dias, até 29/11/2025.
A ironia da noite
Para chegar à final, não é necessário festa de gols, de tiki-taka, de show pirotécnico. Isso é ótimo, claro. Mas também é preciso entrega, marcação, suor, contenção. Futebol é assim, libertadores é assim. E assim o gigante Flamengo atropelou mais um, rumo à Glória Eterna.
E enquanto alguns esperavam placar elástico, outros (assim como eu) esperavam por essa “guerrilha”, mas não precisava ser tão sofrido. Porque a Libertadores é isso: não é só jogar bem — é sofrer e resistir. E o Flamengo fez isso.
No fim, ficaram eles com a bola… e nós com a vaga. Porque em Avellaneda não teve milagre — teve Flamengo.

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