O futebol, antes símbolo de união e paixão popular, parece trilhar um caminho de elitização no Brasil.
A escalada de preços de camisas oficiais, ingressos e planos de sócio torcedor, por exemplo, afasta o torcedor comum dos estádios, transformando o esporte em um artigo de luxo.
Camisas oficiais: a identidade que custa caro
Vestir a camisa do time do coração, um símbolo de identidade e paixão, tornou-se um luxo para muitos.
O preço médio de uma camisa oficial de um grande clube brasileiro ultrapassa os R$ 300, um valor exorbitante para a realidade da maioria dos torcedores.
Edições limitadas e comemorativas podem chegar a custar mais de R$ 450, tornando-se itens de colecionador para poucos privilegiados.
Essa escalada de preços impulsiona o mercado de falsificações, que cresce a cada dia, evidenciando a dificuldade do torcedor em manter a tradição de vestir a camisa do seu time.
Ingressos: o futebol longe do povo
A experiência de ir ao estádio, que já foi um ritual sagrado pro torcedor brasileiro, está se tornando cada vez mais distante da realidade da maioria.
Os preços dos ingressos, em constante ascensão, impedem que famílias possam ir juntas e que torcedores de baixa renda (a maioria da torcida) frequentem os jogos com regularidade.
A disparidade nos valores dos ingressos entre os clubes é gritante. Pra ilustrar essa diferença, pegamos alguns dados do Estatísticas do Futebol e listamos aqui os valores médios de ingressos dos clubes da série A do campeonato brasileiro de 2024:
- Palmeiras: R$ 83,91
- Atlético-MG: R$ 76,16
- Flamengo: R$ 68,06
- São Paulo: R$ 65,49
- Vasco: R$ 64,91
- Cuiabá: R$ 63,38
- Botafogo: R$ 63,08
- Grêmio: R$ 61,38
- Corinthians: R$ 57,32
- Cruzeiro: R$ 53,34
- Juventude: R$ 50,58
- Santos: R$ 47,52
- Fluminense: R$ 47,08
- Red Bull Bragantino: R$ 43,84
- Internacional: R$ 42,82
- Criciúma: R$ 38,32
- Athletico-PR: R$ 35,63
- Bahia: R$ 33,88
- Vitória: R$ 26,88
- Fortaleza: R$ 21,29
É importante lembrar que esses valores representam a média dos preços praticados pelos clubes e podem variar de acordo com diversos fatores, como:
- Setor do estádio;
- Importância da partida;
- Promoções e descontos;
- Planos de sócio torcedor.
A modernização dos estádios, com a construção de arenas confortáveis, elevou os custos operacionais de vários clubes e, consequentemente, o preço dos ingressos, afastando o torcedor popular das arquibancadas.
Planos de sócio torcedor: exclusividade tem preço
Os programas de sócio torcedor, que oferecem vantagens como prioridade – alguns até gratuidade – para garantir ingressos e descontos em produtos oficiais, também contribuem para a elitização do futebol. Apesar de ainda ser muito mal explorado no mercado brasileiro. – mas isso é papo pra outro texto.
A variação nos valores dos planos entre os clubes é significativa, com alguns times mirando em um público seleto e de alto poder aquisitivo.
Enquanto o Bahia oferece o seu plano mais caro, por R$75 mensais, o Palmeiras possui um plano que ultrapassa os R$800 mensais.
Ambos (e todos os demais que possuem ST) têm planos mais acessíveis, que criam uma hierarquia dentro da própria torcida, porém excluindo aqueles que não podem arcar com os altos custos.
Esse movimento de exclusão se dá porque toda a carga de ingressos de jogos mais importantes acaba antes mesmo de chegar, muitas vezes, na última fila de prioridade dos torcedores, quem dirá para os adeptos que não podem se associar.
A gangorra financeira: investimentos inflados vs. acesso popular
Enquanto os clubes aumentam os preços pro torcedor, os investimentos em contratações de jogadores continuam em ascensão.
Em 2025, clubes como Flamengo, Botafogo e Palmeiras desembolsaram centenas de milhões de reais para reforçar seus elencos, priorizando grandes investimentos em detrimento do acesso do torcedor ao esporte.
Essa gangorra financeira, onde os altos investimentos em jogadores contrastam com a exclusão do torcedor comum, levanta questão importante sobre a prioridade dos clubes: o espetáculo é pra poucos ou deveria ser pra todos?
O Flamengo e a realidade dos preços
O Flamengo, um dos clubes mais populares do Brasil, exemplifica a escalada de preços no futebol brasileiro.
Em 2025, os preços dos ingressos para jogos do clube variam de R$60 (no campeonato carioca)a R$600 (Maracanã+ na estreia da Libertadores).
As camisas oficiais do clube custam em média R$350 (tem de R$699), e os planos de sócio torcedor variam de R$61 a R$ 325 mensais.
Mas pra responder a provocação grifada acima e aprofundar a análise, é possível explorar alguns pontos chave:
A lógica do mercado e a priorização do “espetáculo”:
- A globalização do futebol e a entrada de grandes investidores transformaram o esporte em um negócio milionário.
- Clubes buscam reforçar seus elencos com jogadores de renome, visando aumentar a competitividade e atrair mais público, tanto nos estádios quanto nas transmissões televisivas.
- Essa lógica de mercado, no entanto, muitas vezes prioriza o “espetáculo” para um público seleto, em detrimento do acesso do torcedor tradicional, que nem sempre pode arcar com os altos custos.
O impacto da elitização na cultura do futebol:
- A crescente exclusão do torcedor de baixa renda dos estádios pode levar a uma perda da identidade e da paixão popular que sempre caracterizaram o futebol brasileiro.
- A atmosfera dos jogos, que antes era marcada pela diversidade e pela presença de diferentes classes sociais, pode se tornar mais fria, homogênea e elitizada.
- Essa mudança cultural pode afetar a própria essência do futebol, que sempre foi um esporte do povo.
A busca por um equilíbrio:
- É fundamental que clubes e federações busquem um equilíbrio entre a necessidade de investir em seus elencos e a importância de garantir o acesso do torcedor ao esporte.
- Algumas medidas que podem ser tomadas incluem a criação de programas de ingressos populares, a oferta de planos de sócio torcedor mais acessíveis e a busca por parcerias com empresas que valorizem a inclusão social.
- Além disso, é importante que os clubes invistam em projetos sociais e em iniciativas que promovam o acesso ao futebol para crianças e jovens de baixa renda.
A complexidade da questão:
- A questão da elitização do futebol é complexa e envolve diversos fatores, como a inflação, os altos custos de operação dos estádios e a crescente influência do mercado no esporte.
- Não há soluções fáceis, mas é fundamental que haja um debate aberto e transparente sobre o tema, com a participação de todos os envolvidos: clubes, federações, sócios, torcedores e sociedade em geral.
Em resumo, a “gangorra financeira” entre os investimentos em jogadores e o acesso do torcedor levanta questões importantes sobre o futuro do futebol brasileiro.
É preciso encontrar um equilíbrio que garanta a sustentabilidade do esporte, sem comprometer sua essência popular.
O futebol ainda é do povo?
A paixão pelo futebol sempre foi um elo que une diferentes classes sociais e gerações.
Por isso que é fundamental que clubes e federações trabalhem juntos pra garantir que o esporte continue sendo um espaço de inclusão e celebração da identidade brasileira.
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